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Cultura

Stevan Gaipo – Comédia de Pé

Em tempos de pandemia, a Revista Viva Minas bateu um papo online com o comediante mineiro Stevan Gaipo

Stand up Comedy é um termo americano que descreve os espetáculos de comédia executados por apenas um comediante. Geralmente de pé — daí a expressão “stand up” —, sem acessórios, caracterização ou qualquer outro recurso teatral, essa também é a modalidade escolhida pelo comediante mineiro Stevan Gaipo.

Nascido em Oliveira, Minas Gerais, Stevan é comediante de stand up desde os 15 anos, mas se profissionalizou aos 22. Em entrevista, ele contou um pouco da sua história: quando e como começou a trabalhar com comédia, seu processo de criação, a espera pela volta aos palcos e muito mais.

O grupo de teatro

Foi na Escola Municipal Walfrido Silvino dos Mares Guia onde Stevan estudou da 5ª à 8ª série. E lá também ocorreu seu primeiro contato com um professor de teatro. “Nas primeiras aulas, ele fez alguns jogos de improviso teatral com a turma, e eu achei o teatro fantástico e muito prazeroso”, lembra.

A partir desse contato, o comediante se aprofundou no teatro. “Eu participava de um grupo de teatro em Oliveira, quando o Stand Up Comedy começou a se tornar realidade no Brasil”, conta.

Ao lado de outros quatro amigos, ele montou um espetáculo de esquetes e stand up, dando origem, assim, ao Comédia de Quinta — projeto no qual atuou por dois anos e onde teve base para buscar seu crescimento como comediante.

Stevan diz que ali aprendeu muita coisa sobre palco, sobre o que funcionava e o que não funcionava e, principalmente, muito sobre produzir shows, já que no começo de carreira todo artista é seu próprio produtor.

Em relação ao primeiro contato com a modalidade de show, o comediante brinca que é o tipo de apresentação perfeita para ele, “preguiçoso em essência”, como se define. “Eu fazia teatro e quando conheci o stand up me apaixonei”, recorda.

“Eu detestava ter que sair de casa para ir em ensaio de teatro e, chegando lá, não ter ensaio porque o protagonista faltou. O stand up é perfeito, não tem que maquiar, não tem que ir à costureira experimentar figurino e, de quebra, ainda posso transmitir ao público os meus pensamentos e percepções sobre a vida”, completa.

O processo criativo

Para Stevan, o processo criativo de um texto de stand up comedy precisa partir de uma boa premissa, com um tempero especial. Geralmente, todo esse processo tem início a partir de observações do cotidiano do comediante ou roteirista que vai trabalhar nesse texto.

O comediante cita como exemplo um de seus vídeos disponíveis online, em que o tema é “Pobre tem dificuldades para se comportar em evento chique”. Ele explica ainda que somente a premissa não teria graça, pois ainda é um material cru. “É necessário aplicar essa ideia a técnicas de stand up para que se torne um texto”, acrescenta.

Existem técnicas para destrinchar uma premissa, e uma delas é fazer perguntas: por que um evento chique é difícil para o pobre? O que tem lá que é diferente da vida da gente? Sobre quais assuntos as pessoas chiques falam? O que o pobre sente quando cai em um evento chique? É baseado nas respostas dessas perguntas que o tema se torna amplo e o comediante começa a ter possibilidades para fazer piadas.

Para montar um show solo, Stevan acredita que o trabalho é ainda mais delicado. “É preciso ligar um assunto a outro e todos precisam ter algum sentido com o tema central do show. Além de tudo, ter começo, meio e fim”, aponta. Mas ele também diz que é preciso dosar a intensidade do espetáculo.

“Não pode ser um show de risadas intensas do começo ao fim, e sim intercalar momentos de muito riso com momentos menos intensos, para que a plateia descanse. Rir cansa o corpo e, se o público não conseguir respirar, o show começa a ficar cansativo, mesmo que muito engraçado”, explica Stevan.

Pode até não parecer, mas comédia é coisa séria, e, após todo esse processo, tem início a fase de testes. Nesse momento, o humorista testa pequenas frações do texto nas apresentações do show atual, entre amigos ou até mesmo online.

“Sempre tem alguma coisa para mexer, alguma coisa que parecia que ia funcionar e acabou não funcionando, alguma coisa que dá para melhorar”, afirma o comediante. Depois de testado, revisado e testado novamente, o espetáculo pode entrar em cartaz. “De toda forma, o show é uma evolução constante, mesmo em cartaz. A cada apresentação, alguma coisa melhora”, diz.

Mas, e a pandemia?

Com a pandemia e o isolamento social, muitos profissionais precisaram se reinventar e reestruturar sua forma de trabalho. Com teatros e bares fechados, não foi diferente para os comediantes em todo o país. “Na pandemia, o nosso esforço se tornou 100% online”, revela Stevan.

A renda dos shows foi perdida, mas, para quem tem uma boa audiência, dá para monetizar com a internet. Além disso, surgiu um mercado novo, o de shows online. Algumas empresas têm contratado comediantes para se apresentarem pela internet aos seus funcionários, por exemplo.

“Foi algo que me causou apreensão no começo, por nunca ter feito um show sem ter a reação do público bem na minha frente. Mas estamos aprendendo a mensurar se o público está gostando pelos comentários enviados em tempo real. Está sendo um desafio gostoso”, confessa.

O comediante também acredita que, com o fim da pandemia, a volta aos palcos será um momento que exigirá cautela, pelo stand up ser uma modalidade que requer “ritmo de jogo”, e, até por isso, vai manter o show atual quando for possível retomar os trabalhos em segurança.

Quando esta entrevista foi realizada, a expectativa de Stevan era a de escrever um novo show em 2022. Com grande número de seguidores nas redes sociais, ele segue criando conteúdo diversificado na internet. “O grande lance é saber transformar a vida em conteúdo, só assim para conseguir criar com frequência”, conta.

Jerry Seinfield, comediante americano, diz que as piadas estão no ar e o comediante precisa de uma boa antena para captá-las. Além disso, é necessário entender a proposta de cada rede e criar conteúdos diferentes. Afinal, em cada uma delas o comportamento do público é diferente e a linguagem também. “O que eu mostro é a minha vida, o que acaba criando uma relação muito íntima com os seguidores. É como se fossemos todos primos, e as minhas redes fossem o grupo de WhatsApp da família”, brinca o comediante.

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Texto: Flávia Siqueira