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Cultura

Feira de Cerâmica MG realiza edição virtual com mais de 50 artistas e ampla programação

A partir do dia 1º de novembro, evento traz exposições, bate-papos e catálogo de vendas de peças artísticas, além de oferecer seis oficinas que vão do primeiro contato com argila para crianças e adultos até processos avançados 

Nascida do manejo paciente do barro endurecido ao fogo, a arte da cerâmica é praticada do Oriente à cultura ameríndia como forma de dar vida a objetos utilitários únicos. Em Minas Gerais, há um quê a mais nessa história. A tradição ceramista reuniu ao longo do tempo influências diversas, estreitando as relações do fazer artístico da China até o Vale do Jequitinhonha, com intuito de ir além da utilidade objetiva: criando desde objetos decorativos, até instrumentos musicais e acessórios de moda. É a partir dessa conexão entre belezas distintas, que a Feira de Cerâmica de Minas Gerais reúne, entre 1º de novembro a 18 de dezembro, 56 artistas referência nesta arte, em uma programação com exposições, bate-papos, oficinas para adultos e crianças e um rico catálogo de artefatos artísticos à disposição do público para aquisição com obras para todos os estilos.

Maria Cheung – Foto Maria Helena Zaparolli

Pela segunda vez em formato virtual, devido às restrições sanitárias da pandemia da covid-19, a Feira de Cerâmica MG acontece desde 1999, com idealização da ceramista mineira Erli Fantini. A feira ocupou nos últimos anos o emblemático Mercado Central de Belo Horizonte como ponto de encontro para ceramistas e o público interessado. Desta vez, a curadoria da edição virtual é assinada por Regiane Espírito Santo e Sebastião Pimenta, dois conceituados artistas plásticos e ceramistas mineiros, com forte influência oriental, tendo realizado trabalhos no Japão e na China – berços ceramistas reconhecidos no mundo inteiro.

Como consequência dessa raiz asiática, dois dos principais convidados para os bate-papos, realizados em lives no Instagram, têm relação com o Oriente. Quem abre o evento é a chinesa Maria Cheung, um dos nomes mais respeitados da cerâmica no mundo, naturalizada brasileira e radicada em Foz do Iguaçu (PR), onde mantém seu ateliê desde 1995, tendo exposto em países como Índia, Áustria, Alemanha e China. Além dela, há a presença do brasileiro Leandro Kanagusuku, formado no Sheridan College, centro de design e tecnologia do Canadá, com pesquisas apuradas sobre a arte japonesa e coreana, a exemplo de um trabalho com os imensos “potes onggi” coreanos.

“Eu e o Sebastião Pimenta solidificamos nossa amizade e parceria em minha primeira viagem à China em 2008, que é um dos berços da cerâmica, então, é uma feliz coincidência esses convidados com raízes orientais, que têm tanta influência no Brasil. Além deles, teremos bate-papos com a ceramista paulista Sonia Borgaz, que tem levado a cerâmica a um patamar diferenciado nas galerias de arte de São Paulo, e o influencer Cesar Augusto Barbosa, responsável por um trabalho didático e profundo para ensinar sobre as técnicas e a história da cerâmica na internet”, diz Regiane.

Neste ano, a tônica do evento é ampliar o olhar sobre a manipulação da cerâmica, para além dos utilitários e das importantes tradições, tendo a presença de 56 artistas com centenas de trabalhos diversos, desde pratos, vasos, quadros e esculturas, até instrumentos musicais, colares, anéis, pulseiras e quais acessórios mais a imaginação permitir. Todos os trabalhos serão disponibilizados em uma loja virtual no site do evento (www.feiradeceramicamg.com.br), a partir de 1º de novembro. “A cada edição, temos mais variações de arte a partir do barro. E isso é fantástico de ver. Nesta segunda edição virtual, vamos manter o catálogo online das obras, com a possibilidade de o público interagir com os ceramistas, podendo adquirir diferentes obras dos ateliês dos artistas”, revela Pimenta.

História e programação

Há 22 anos em atividade, com a idealização da ceramista Erli Fantini, a  Feira de Cerâmica MG tem a sensível característica de refletir as múltiplas ramificações desta arte. Erli Fantini, mineira de Sabará é um dos nomes mais cultuados da cerâmica mineira, com exímio domínio das queimas do barro, incluindo a técnica em forno bizen, que começa com o fogo baixo e termina com labaredas intensas responsáveis por quase “concluir a obra por conta própria”; até artistas calcados em tradições religiosas ou da releitura da esmaltação, remetendo à técnica grega; além das influências milenares da arte produzida na China, marcada pelas pinturas luminescentes e milimétricas na cerâmica lisa – mesclando, dessa forma, processos sofisticados de manejo do barro, que marcam presença seja nos sertões mais profundos do Brasil ou nas conceituadas galerias de arte das metrópoles mundo afora. “Temos uma riqueza enorme de linguagens de cerâmica que subsistem e acrescentam uma à outra”, explica Regiane.

Por causa dessa essência, as oficinas da Feira de Cerâmica MG envolvem diversos processos de manipulação da argila, atingindo públicos distintos. Para as crianças, o primeiro contato com as formas do barro pode ser experimentado na oficina “Alguma criança quer aprender a fazer uma xícara?”, conduzida pela artista e ceramista Djenane Vera Eduardo, formada em desenho e artes plásticas pela Escola de Design da UEMG. Nos encontros, são necessários apenas materiais simples, como, além da própria argila, barbante, colheres, garfos, escova de dentes usada, garrafinha plástica etc, com a intenção de estimular a modelagem da argila através de objetos cotidianos e lúdicos.

Em caráter mais técnico, há as oficinas de Emanuelle Tolentino, “Cerâmica para Iniciantes”, abordando a história, tipos de matéria-prima e formas de queima em fornos específicos; e “Simplificando a Química da Cerâmica”, que detalha as composições das substâncias de todo o processo da cerâmica, incluindo a liga da argila e os métodos de queima, com aulas ministradas pelo professor Eduardo Apolaro, químico e ceramista há quase 50 anos.

Há também opções mais contemporâneas, em aulas elaboradas a partir do frutífero diálogo da cerâmica com a música e a moda. Quem deseja aprender sobre a modelagem de acessórios, pode se aperfeiçoar com a artista Germano Arthuso, especializada em Design de Gemas e Joias pela Escola de Design da UEMG, e que propõe ensinar a construir uma linha de adereços personalizada para cada aluno na oficina “Adorno Corporal”. Já os interessados em criar instrumentos musicais, poderão aprender as técnicas da artista plástica Cibele Tietzmann, com extensa pesquisa acadêmica sobre a construção de instrumentos seculares, como ocarinas e apitos dos povos ameríndios, produzidos há mais de 5 mil anos para imitar sons de pássaros. Na oficina, os alunos aprenderão a elaborar os apitos típicos dos povos pré-colombianos.

Processos avançados

Para dominar as técnicas de impressão e transferência de imagem para o barro, a recomendação são as aulas da ceramista Regina Paula Mota, formada em Cerâmica, Desenho, Pintura e Serigrafia pela Escola Guignard. Na oficina de “Print on Clay”, Regina faz um compilado de todas as suas formações, em um curso que vai explorar a sobreposição de imagens em técnicas distintas, mas sempre sobre trabalhos em cerâmica.

Todas as oficinas, com duração de três a quatro encontros, com até duas horas-aula por dia, serão ministradas ao vivo pela plataforma Zoom. As inscrições são realizadas no site da feira e o investimento varia entre R$100 e R$200, a depender das atividades escolhidas. Neste ano, um dos principais desafios foi adaptar um ofício intrinsecamente atrelado ao toque, tendo como base a manipulação da argila com as mãos, para o ambiente virtual. “É um desafio. Mas o diferencial é que as aulas são ao vivo, com a possibilidade de todos os alunos fazerem perguntas, criarem a obra junto com o professor. Isso aproxima os participantes dos ceramistas e confere uma boa dinâmica para a aula”, avalia Regiane.

Para além de toda a técnica que envolve a criação dos ceramistas, como formas de trabalhar a argila, diferenças entre os tipos de barros, reações químicas, temperaturas e ferramentas ideais para moldar diferentes artefatos etc. A Feira de Cerâmica MG também tem a intenção de propiciar, a partir da programação proposta e das reflexões dos convidados, uma forma crítica da consciência cultural e um olhar íntimo e mais apurado em relação aos moldes, padrões e utilidades da vida prática ao nosso redor.

“Quando a gente começa a mexer com barro, voltamos às origens. Pegar a terra e tentar trabalhá-la já é transformador. Nesse movimento, o que toda pessoa começa a demonstrar com o manuseio do barro é quem ela é, o que ela quer atingir ao moldar uma peça, como ela entende o meio ao seu redor ao escolher determinadas formas, e como ela quer afetar esse meio. Por isso, a cerâmica é um aprendizado de vida, com paciência e abertura para o novo sempre”, avalia Regiane.

Feira de Cerâmica MG | 2ª Edição Virtual
Quando: 1º de novembro a 18 de dezembro 2021
Inscrições para oficinaswww.feiradeceramicamg.com.br
Bate-papos: Sempre às 20h, pelo Instagram www.instagram.com/feiradeceramicamg

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