Cultura

‘Pãozin de Cará: entre o porto e as montanhas’ reúne histórias mágicas sobre migração e exílio

Primeira publicação do multiartista Raphael Morone narra imaginações e observações sobre as cidades de Santos (SP), sua terra natal, e Belo Horizonte (MG), onde reside atualmente; narrativa é construída a partir de prosas livres, poemas e pinturas reunidas em 200 páginas de diário 

Pãozin de Cará 1 – Foto Thyana Hacla-Ateliê Phonte 88

Mais do que os destinos, importa mesmo são as travessias, como ensina o sertão indivisível de Guimarães Rosa. É assim que um sonho pode viver até no vazio do nosso espírito, se tomarmos a lição de Roberto Bolaño no grau de possibilidades que talvez precisemos inventar para existir no mundo. Cercado de referências do realismo fantástico, da poesia, da pintura e de uma imaginação efervescente, o multiartista Raphael Morone, de 34 anos, apresenta seu primeiro livro, “Pãozin de Cará: entre o porto e as montanhas” (Margem Edições). Para além de narrar uma epopeia particular do artista que decidiu trocar, na cara e coragem, a paisagem natal do porto de Santos (SP) pelas intimistas e expansivas montanhas de Belo Horizonte, o robusto livro de 200 páginas registra, em formato investigativo de diário de bordo emoldurado por quadros vibrantes, um relicário de aventuras sobre os signos da migração.
Nascido e criado em Santos, cercado pela paisagem litorânea, Raphael Morone decidiu se mudar para Belo Horizonte por paixão, sonho e trabalho, uma tríade que parece mover os destinos que o próprio artista tece para si mesmo. Na inevitável condição de rapaz latino-americano, “sem dinheiro no bolso”, o artista também vislumbrava a prometida cartela de oportunidades restritas do competitivo mercado de trabalho e, por que não, um certo gosto de sol, como reza o sonho do Clube da Esquina sobre indistinguíveis desejos de viver.

“Em 2013, muito frustrado com a profissão de designer, depois de deixar o emprego que tinha numa franquia dos Correios, peguei a grana do acerto e, junto com um amigo, viajamos para o Uruguai. Lá, conheci uma pessoa, ficamos amigos e adivinha de onde ela era? De Belo Horizonte! Ela me convidou pra conhecer a cidade no mesmo ano e eu me apaixonei. A imagem que mais me marcou foi um domingo de manhã no Parque Municipal: vi famílias de todo tipo fazendo piquenique nos gramados e aquilo mexeu muito comigo. Ao redor, as árvores, os pedalinhos, o lago, o parquinho com brinquedos velhos lá dentro, os fotógrafos lambe-lambe, aquilo tudo me criou um imaginário muito bonito na cabeça. Eu pensei: preciso vir morar aqui. Em 2015, decidi mudar para Belo Horizonte, buscando um novo caminho”, resume Morone. 

Entre as aulas de Artes Visuais, que abriram o leque de criação para a pintura,  gravura, desenho e técnicas com canetas marcadoras e pastel oleoso, por exemplo, concomitantemente a trabalhos assinados junto à cena mineira, como as ilustrações para o disco de estreia de Marcelo Veronez, Raphael Morone começou a registrar  impressões diárias em cores, textos, prosa livre e poemas. O livro nasceu de suas escrutinações cotidianas sobre as duas cidades que o compõem e o divisam.

“Passeio pelas ruas do bairro Santo André com a mesma curiosidade que eu explorava as ruas do Jaraguá, quando cheguei na capital mineira. O livro é um processo contínuo de observação, de descoberta, de encantamento com o novo e mesmo com o que já se tornou rotineiro. Nosso olhar tem essa capacidade de ‘re-encantar’ as coisas, de tornar mercearias lugares mágicos com bugigangas infinitas, de transformar ruas arborizadas em bosques e olhar para as montanhas como entes queridos. É a perspectiva que encontrei para me entender em minha nova morada”, diz o artista.

O livro

Pãozin de Cará 2 – Foto Thyana Hacla-Ateliê Phonte 88

“Pãozin de Cará” carrega no nome uma síntese entre as peculiaridades de Beagá e Santos. O tradicional pão consumido pelos moradores da cidade santista — equivalente ao pão de queijo de Minas — ganhou a pronúncia mineirinha para amarrar, de certo modo, as fruições das duas cidades. “Num passado distante, nosso pãozinho era de fato feito de cará, mas diversas lendas urbanas dizem que o cará, em certa feita, ficou caro e os padeiros da cidade deixaram de utilizá-lo, mas o nome ficou até hoje. A gente come um pão de cará sem cará. Eu digo que esse é o realismo mágico do nosso dia a dia, um faz de conta que todo mundo brinca”, destrincha Morone.

As duas centenas de páginas da publicação carregam desde essas observações, que envolvem o cotidiano de mercearias, parques, comidas, hábitos e particularidades dos ventos das montanhas mineiras, até histórias mágicas de barqueiros navegando por canais de Santos, e imaginações improváveis sobre o bairro Calafate, por exemplo, e seu significado náutico, em um processo criativo que vislumbra um lugar com praças-portos nos quais é possível haver navios em uma terra privada de oceanos.

“O caderno, em seu todo, é uma poética sobre a viagem, sobre o passar do tempo, sobre deslocamento e exílio. Mas ele também é um diário de bordo, porque o conteúdo dele também tem isso, embora não de forma estrita. Eu arrisco dizer que ele cai num território da arte contemporânea em que se torna muitos mini-mundos numa coisa só”, explica o artista.

Os cadernos originais de Raphael Morone, compostos à mão através de andanças pelas duas cidades, foram transformados em uma caprichada edição de capa dura, confeccionada em tecido marrom, em reverência aos buritizeiros e às áreas úmidas do cerrado mineiro. O trabalho de editoração é da Margem Edições, capitaneado pela editora Íris Ladislau, com diagramação de Ana Cláudia Rufino e revisão de Caroline Lima. A cuidadosa encadernação foi elaborada pelo Ateliê Phonte 88, estúdio de Thayana Hacla e Circe Clingert, especializado em projetos editoriais de artistas.

O livro está em pré-venda pela Margem Edições (para comprar, acesse este link), com pedidos feitos sob demanda, até o dia 19 de dezembro, pelo preço promocional de R$ 210 — após essa data, as unidades saem por R$ 300, cada, com entregas realizadas a partir do mês de janeiro.

A partir de uma linguagem artística múltipla e de uma narrativa não-linear, que parece revelar a importância dos percursos, muitas vezes ausentes de mapas e outros traçados didáticos, Morone propõe ao leitor, de certo modo, movimentar a criação das próprias aventuras. “O geógrafo Milton Santos diz algo sobre a necessidade de nós, migrantes, criarmos uma outra via para gente se entender num lugar novo, deixando a memória do lugar de origem para trás, já que a nova realidade nos obriga a novas rotinas e experiências. E esse processo, como um caranguejo largando a velha carcaça, é muito doloroso, difícil. Minha experiência com Belo Horizonte é muito isso, uma forma de criar minhas próprias aventuras, minha outra via de entendimento, com seus amores e suas dores”, completa Morone.

O artista

Raphael Morone – Autorretrato

Raphael Morone é formado em Design Gráfico pelo Centro Universitário São Judas Tadeu – UNIMONTE e em Licenciatura em Artes Visuais pela UEMG. Em 2008, co-fundou, em Santos, o coletivoACTION (2008-2013), veículo no qual escreveu sobre música negra e artes gráficas. Iniciou sua trajetória nas artes visuais com a produção de cartazes para o coletivoACTION, a partir de técnicas da computação gráfica, com forte pesquisa sobre o patrimônio cultural e histórico de Santos. Em 2015, mudou-se para Belo Horizonte, lugar que escolheu para continuar seus estudos, motivado pela continuidade da sua produção artística e das relações entre artes visuais e educação.

Participou de exposições no Sesc Santos, na exposição “Varal Design” (2013), e no Espaço do Conhecimento da UFMG, na mostra “O Comum e as Cidades” (2014). É autor das ilustrações e pinturas do disco “Narciso Deu um Grito” (2017), estreia do cantor e compositor mineiro Marcelo Veronez no mercado fonográfico. Tem poemas publicados na Revista Chama, de Belo Horizonte, e também na coletânea “Estados Líquidos”, da Margem Edições.

Atualmente, Raphael Morone utiliza a pintura como suporte artístico e foca sua pesquisa em reflexões sobre fronteiras, a partir de sua condição de migrante, incluindo investigações e abstrações sobre os vestígios da presença humana, da materialidade e da temporalidade das coisas nas paisagens.

Serviço: “Pãozin de Cará: entre o porto e as montanhas”
Pré-venda até 19/12 pelo link www.margemedicoes.com/loja 
Autor: Raphael Morone
Editora: Margem Edições
200 páginas | capa dura | encadernação artesanal
Valor promocional: R$ 210