Cultura

Multi-artista mineira Letícia Coelho lança o filme “Brota”, concebido a partir de seu primeiro disco

Curta narra impressões de uma viajante-cósmica ao chegar no Brasil, em 2022  estreia em BH acontece no dia 28/6, no Teatro de Bolso do Sesiminas

Frame Brota – Crédito Bruna Brunu

“Sempre enxerguei o mundo ouvindo sua trilha sonora. As composições surgem para mim como imagens e texturas, mas também como narrativas. Gosto de contar histórias com elas”. É com essa cosmovisão capaz de aglutinar o conceito de imagem e som; música e cinema, que a multiartista mineira Letícia Coelho apresenta o filme “Brota”, cuja estreia em Belo Horizonte acontece no dia 28/6, terça-feira, no Teatro de Bolso do Centro Cultural Sesiminas. O evento contará com duas exibições do filme, às 20h e às 21h, além de um bate-papo posterior com Letícia e com a diretora Bruna Brunu sobre produção audiovisual e mulheres nas artes. Os ingressos custam R$30 (inteira), R$15 (meia-entrada) e R$10 (entrada social), e podem ser comprados antecipadamente pela Sympla, neste link..

Criado sob o guarda-chuva conceitual do primeiro álbum autoral de Letícia Coelho (também intitulado “Brota”, de 2018), o curta-metragem narra a travessia de uma mulher viajante que passeia por diferentes mundos, temporalidades e dimensões, até chegar no Brasil de 2022 – “pousando” em Brumadinho, no interior de Minas, município atingido por um dos crimes socioambientais da mineração mais marcantes da história do país. Após a estreia em BH, o filme irá ao ar no canal da artista no YouTube, no dia 29/6, quarta-feira.

“Brota” foi concebido para ser ouvido, visto, lido, cantado e principalmente (re) contado em amplas linguagens. No filme, Letícia Coelho performa a tal viajante-cósmica que se redescobre a cada frame ou partícula de segundo na tela. A obra é pautada por um incessante caráter revolucionário, notabilizado por referências que vão desde os mitos heróicos das Moiras, na Grécia Antiga; passando pela sabedoria popular da terra, com seus causos, festas e brinquedos; e, ainda, pelos sons dos tambores, guitarras e samplers eletrônicos do asfalto, dispostos em um mesmo universo. 

Frame Brota – Crédito Bruna Brunu

“O curta traz alguns elementos do disco que foram trabalhados ao longo de quatro anos com a Alice Assal (diretora de arte e figurinista) e a Bruna Brunu (diretora do filme e de fotografia). Em especial, contamos a jornada de uma heroína por mundos novos, pelo nascer e morrer constantes. É um reinventar-se na travessia e no jogo”, adianta Letícia, lembrando que a artista Clara Marinho Pirani faz uma participação especial no filme.

Em 12 minutos, o que se vê na tela são as oscilações de uma heroína nascida no mato e que apreende o sentido da vida com a cultura oral, a herança diaspórica afro-ameríndia e as brincadeiras populares do Brasil, como a congada, o maracatu, o cavalo-marinho e as folias. Vestida por essa vivência, nossa viajante usa a sabedoria festiva da infância para lidar com a afetação da violência, a formalidade e a patologia desordenada da cidade grande, em contraste com a harmonia hábil da natureza. Em uma geografia cosmopolita das impermanências, para além das chegadas e partidas como marcos fundantes da vida, “Brota” enfoca a instabilidade didática da travessia. 

Nesse caminhar, a viajante é enlamaçada por rejeitos de minério, em uma simbologia imagética sobre a invisibilidade e o silenciamento que, principalmente a população pobre do interior, ainda vive após dois dos maiores crimes socioambientais do Brasil: cometidos nas cidades mineiras de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). De forma permanentemente dolorosa, sangram as veias abertas de Minas Gerais, estado de origem de Letícia Coelho. “Nossa personagem traz a lama no corpo e dança em um espaço de resistência no centro da capital mineira, trazendo essa memória presente e não esquecida, ainda em disputa. Como cidadã, não concordo com o projeto de mineração do Estado. Cresci na Zona da Mata, mas sempre estive em outros interiores do estado e vi espaços de mata virarem áreas mineradas”, explica a artista.

Ao sabor de acasos, destruição, erros, nostalgias e recomeços, “Brota” extrapola a ideia de um filme e se torna um mundo dentro de muitos mundos, em uma viagem representada pelas três Moiras da mitologia grega – Clotho, Lachesis e Átropos -, entidades que simbolizam a caminhada humana da vida à morte. Clotho é a responsável por gerar o fio inicial da vida humana e estimular sua trajetória. Este é o momento em que a personagem viajante nasce, reconhece suas ancestralidades, memórias, lugares e hábitos que compõem seu primeiro mundo. Em seguida, ao deixar seu ninho, a viajante vive os ensinamentos de Lachesis (encarregada do inusitado, das mudanças abruptas atribuídas à sorte ou aos desatinos), reavaliando deveres, dores e destinos ao bel prazer das incertezas mundanas. Por fim, Átropos alicerça a inevitabilidade do final dos ciclos, ao manter sob sua égide o poder de romper o fio da vida com sua tesoura encantada.

Dirigido por Letícia Coelho em parceria com Bruna Brunu, o curta foi produzido de forma totalmente independente, trazendo o caráter revolucionário coletivo da trama também para o processo de elaboração da obra. “No filme, temos uma equipe de criação e produção formada por mulheres, pessoas não binárias, a partir de uma produção independente sem financiamento ou patrocínio em meio a uma pandemia. Olhando para essa caminhada, vejo que construímos já um mundo novo, coletivo e feminista”, diz Letícia. 

“Brota” carrega ainda a assinatura das profissionais do audiovisual Renata Lima (assistência de figurino e assistência de câmera), Nina Bittencourt (assistência de produção e produção de set), Luiza Palhares (produção de objetos e assistência de produção), além de Gabriela Dominguez (maquiadora), Ana Rosa Oliveira (assistência de maquiagem), Maria Elisa Pompeu (motorista) e Talesson Celestino (segurança). A produção geral e a coordenação do curta-metragem foram realizadas pela produtora cultural Luanda Wilk.

Sobre o disco “Brota”

Lançado em 2018, “Brota” é o primeiro álbum autoral de Letícia Coelho e principal desdobramento para o filme homônimo. As 15 músicas refletem a chamada música de rua – rural e urbana –, em diálogo com o rock e a música experimental eletrônica. Entre guitarras, tambores, melodias pops e espacialidades eletrônicas, o disco apresenta uma poesia alimentada por jogos de palavras que ora atuam como música, ora como poemas, ora como narrações avulsas. 

Mais de 70 pessoas colaboraram com a gravação do álbum, sendo a maioria mulheres – 15 instrumentistas e 41 vozes distintas que encorpam as canções autorais de Letícia Coelho. O álbum vai ser relançado pelo selo YB Music, ganhando novos fonogramas que chegarão às plataformas digitais de streaming no dia 14 de julho. Enquanto o relançamento não chega, você pode escutar o disco neste link.

Sobre Letícia Coelho

Nascida em Amparo da Serra, na Zona da Mata mineira, Letícia Coelho é multiartista, cantora, compositora e multi-instrumentista – se formou percussionista e rabequeira através do aprendizado oral. Estudou com Mestres da cultura popular e também possui trajetória acadêmica. Realizou pesquisas sobre epistemologias do saber, rítmicas, construções sobre natureza e cultura, mitos e lendas afro-ameríndias, ensino de música na tradição popular, organização e construção de instrumentos musicais, processos de composição musical, de criação e de investigação auto-etnográficos.

Em 2018, lançou seu primeiro disco autoral, “Brota”, bem recebido pela imprensa especializada, principalmente em Florianópolis (SC), onde a artista é radicada. Recebeu, em 2020, o “Prêmio FUNARTE” pelo projeto cultural “Samba da da Lê”, junto com Casaria, que reúne compositores e mestres populares em encontros musicais em registro audiovisual. Em 2021, lançou seu segundo disco, “No Passo da Rabeca”, dedicado ao instrumento brasileiro presente em diversas manifestações da cultura popular e objeto de seu estudo nos últimos anos. 

SERVIÇO: Letícia Coelho lança o filme “Brota”

Quando. 28/6 (terça-feira) | 20h (primeira sessão) e 21h (segunda sessão) | Bate-papo com Letícia Coelho e Bruna Brunu após as exibições
Onde. Teatro de Bolso do Centro Cultural Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia)
Quanto. R$30 (inteira) | R$15 (meia-entrada) | R$10 (entrada social). A entrada será gratuita para pessoas negras, indígenas, trans e LGBTQI+, mediante nome na lista. Os ingressos podem ser comprados antecipadamente pela Sympla, neste link.