Cultura

Cia Circunstância estreia nesta sexta versão online do espetáculo “Circo de Família”

Adaptado ao formato virtual, espetáculo será apresentado ao vivo, no YouTube, às 19h30; nos dias 5 e 6 de novembro, Circunstância leva espetáculo presencial a Brumadinho

A Cia Circunstância apresenta a versão online de “Circo de Família” nesta sexta-feira (15), às 19h30, pelo YouTube. Montagem mais recente do repertório da trupe circense, o espetáculo se debruça sobre a estrutura familiar circense e estreou em 2020, sendo, por isso, impactado pela pandemia da Covid-19. A circulação por ruas e praças teve que ser abreviada em função do isolamento social, fazendo com que a Cia Circunstância adaptasse “Circo de Família” para o virtual. Viabilizada pela Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, a estreia da versão virtual do espetáculo chega num momento em que a companhia começa a retomar, também, as atividades presenciais.

Em paralelo à concepção da montagem para o formato online, a Cia Circunstância vem realizando o projeto “Circo de Família de Rolê”, que consiste na circulação do espetáculo pelo interior de Minas e por Belo Horizonte. Fruto do Prêmio Funarte de Apoio a Espetáculos Circenses 2020, a turnê começou no dia 17 de setembro, no povoado de Lapinha da Serra, em Santana do Riacho, onde também foram feitas aulas gratuitas de malabares e perna-de-pau durante três dias. Já em BH, “Circo de Família” foi apresentado no dia 10 de outubro, na Praça México, no Bairro Concórdia. O “rolê” da trupe termina em Brumadinho, em novembro: no dia 5, a apresentação acontece às 19h, em Piedade do Paraopeba, em frente à Igreja Matriz; e, no dia 6, em frente à Igreja dos Marques, na Comunidade dos Marques, no mesmo horário.

“Circo de Família” surgiu da necessidade de registrar, de forma artística, a história das novas configurações familiares do chamado circo contemporâneo. As experimentações começaram em 2017, quando a Cia Circunstância ocupou a Praça da Assembleia durante todo o ano, “passando o chapéu” e criando números que viriam a formatar a peça. Em 2019, a companhia foi contemplada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e entrou para a sala de ensaio, a fim de realizar a montagem. Foram convidados para a direção os amigos e palhaços Adriana Morales e Tiago Mafra, do Grupo Trampulim. O projeto teve assessoria artística do palhaço, diretor e bailarino pernambucano Ronaldo Aguiar, e passou por residências artísticas junto às famílias circenses da Cia Boca do Lixo (GO) e da Cia 1péde2 (RS/SP).

O espetáculo, então, se estruturou como um show de variedades com o casal de palhaços Tica-tica do Fubá (Dagmar Bedê), Alegria Também (Diogo Dias) e, espontânea e voluntariamente o filhote Pirueta Ravioli (Ravi Dias Bedê), de apenas cinco anos. O trio monta um pequeno circo a céu aberto e o improviso dita a cena com números de malabarismo, ilusionismo, acrobacia e muita bobagem. “No princípio, éramos somente nós, o público e a praça. Selecionamos os números que gostaríamos e fomos nos adaptando, tendo em cena também nosso filho, que interagia de acordo com a vontade dele. Quando entramos para a sala de ensaio, nosso foco se voltou para a criação da dramaturgia. Fomos entender qual história a gente queria contar com o espetáculo”, relembra Dagmar Bedê.

Sobre a live, a artista afirma tratar-se de uma real adaptação ao virtual, pensada exclusivamente para este formato. “Durante o ano passado e neste, também, fizemos lives com o espetáculo minimamente adaptado, mas mantendo toda a sua estrutura. Agora, reescrevemos o roteiro junto com a direção de arte. É um espetáculo híbrido, físico e online, já que será transmitido ao vivo. Vão ter várias surpresinhas, que fazem da live algo bem próprio”, conta. “É quase igual ao espetáculo, mas é diferente. Têm números antigos, mas pensados para o virtual. É a volta dos que não foram”, diverte-se a artista.

A trupe de volta à rua

Com a chegada abrupta da pandemia, a necessidade da adaptação para as telas pegou a trupe de surpresa – mas nem por isso freou suas atividades. A Cia Circunstância fez seus malabarismos e realizou, em abril deste ano, a “Mostra Tudo em Família”, em formato totalmente digital. O evento, focado nas novas configurações familiares circenses, contou com uma série de espetáculos de trupes e companhias de diversas regiões do Brasil. “Trabalhar nesse formato digital nunca foi nossa intenção, mas nos vimos obrigados a abrir o olhar para as possibilidades do teatro virtual, para as lives e salas de conferência. A ‘Mostra Tudo em Família’ já era um desejo de antes, que veio à tona a partir das experiências que tivemos com o ‘Circo de Família’. Foi numa convenção brasileira de malabarismo, em Goiânia, que conhecemos a Cia Boca do Lixo e percebemos a importância de abordar de forma ampla as diferentes estruturas familiares do circo contemporâneo”, diz Diogo Dias. 

Dagmar Bedê afirma que a primeira apresentação, na Lapinha da Serra, foi especial. “Estava marcado para quinta-feira, mas um senhor importante da comunidade faleceu e, em respeito a ele, fizemos na sexta. Foi muito especial. Tinha muita gente, todo mundo atento. Oferecemos máscaras antes da apresentação”, conta. “Fizemos três dias de malabares e perna de pau na praça, antes. Isso foi muito legal, porque criamos uma relação com a meninada da cidade. No dia do espetáculo, a gente já os conhecia, já conhecia as famílias. É um público que não está acostumado com esse tipo de trabalho, e que se envolve muito”, completa Diogo Dias. 

O afeto foi justamente o que norteou a escolha das cidades e locais da circulação. “Vamos muito à Lapinha e, sempre que visitamos o povoado, sentimos esse desejo de fazer algo na pracinha. Já Brumadinho eu frequento desde a infância. Fiz apresentações, com outros espetáculos, em eventos da família”, conta. “A Praça México, em BH, também é um lugar especial. A gente morava no Concórdia e, no começo da pandemia, levávamos o Ravi para lá, nas poucas fugidas para distraí-lo. Tem brinquedos, um palquinho e um grupo de capoeira que treina lá duas vezes por semana. Ele adora”, completa Dias.

Em uma época em que a palavra “família” é tão bradada por grupos que propagam o ódio e o preconceito – justamente contra artistas e trabalhadores da cultura – o espetáculo da Cia Circunstância vem para mostrar que é necessário lutar por conceitos e narrativas. “Não podemos aceitar que, em um país tão diverso, com configurações familiares das mais variadas, seja consensual que, para ser uma família, precisa ter um pai, uma mãe e uma criança. Logo neste país, onde tantos filhos crescem sem pai em função do abandono? Quantas crianças crescem com avós ou tios? Quantos casais homoafetivos decidem viver a maternidade ou paternidade? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, sublinha. “No circo, esse conceito da família ainda tem significados mais complexos, que extrapolam os laços consanguíneos e se misturam a relações de trabalho e vida artística. É preciso resistir e lutar para não perder a essência e o valor das palavras que nos custam tão caro”.

Sobre a Cia Circunstância

A Cia Circunstância foi fundada em Belo Horizonte, em 2004, por Diogo Dias e Luciano Antinarelli. Em 2005, entra Evandro Heringer e a companhia monta seu primeiro espetáculo, “Palhaços à Vista”. Em 2009, entra Miguel Safe e, em 2010, Dagmar Bedê. O grupo tem como carro-chefe os espetáculos de rua criados por meio de experimentações em rodas de palhaços, nas praças, numa construção coletiva e aberta com o público. Ao longo dos anos, surgem outros espetáculos do repertório da companhia: “Antes Solo do que Malacompanhado” (2007); “De Mudança” e “Pequeno Grande Encontro” (2009); “De Mala às Artes” (2013); e “123 Testando” (2015).

Quando nascem os filhos dos integrantes, a companhia assume caráter de família circense e começa uma nova pesquisa direcionada às questões familiares. Surge, então, o espetáculo “Circo de Família”, em 2017, ocupando a Praça da Assembleia com rodas de palhaço e “passando o chapéu” o ano inteiro. Em 2019, a Cia aprova um projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura para a remontagem do espetáculo e convida o Grupo Trampulim para fazer residências artísticas com famílias de outros lugares do país.

A ideia agora ganha novos contornos com a Mostra Tudo, cuja primeira edição aconteceu em 2015, celebrando dez anos da Cia Circunstância. A programação, realizada em 40 dias, foi composta por 15 espetáculos locais e nacionais, seis oficinas, dois cabarés de variedades e um cortejo. Em 2017, a companhia realizou a segunda edição da Mostra, com o tema “Comicidade, Palhaçaria e Teatro de Rua”. Na ocasião, o evento contou com 20 espetáculos, sendo 14 realizados por grupos locais e seis por grupos do interior, de outros estados e países, além de duas oficinas e um intercâmbio com artistas locais e grupos convidados.

Realizada em abril de 2021, com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, do Governo Federal do Brasil, a “Mostra Tudo em Família – Novas Configurações Familiares” contou com espetáculos de trupes e companhias de diversas regiões do Brasil. A programação, que é totalmente gratuita, ainda conta com oficinas e números circenses selecionados por meio de convocatórias abertas, além de uma roda de conversa sobre o assunto.

Cia Circunstância – “Circo de Família de Rolê” – Novas datas

à Circo de Família LIVE – 15/10 (sexta-feira), às 19h30, pelo YouTube

à Brumadinho – 5/11 (terça-feira), às 19h, em frente à Igreja Matriz de Piedade do Paraopeba; 6/11 (quarta-feira), 19h, em frente à Igreja dos Marques

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